As eleições presidenciais de 2026 podem apresentar à direita brasileira um dilema estratégico que talvez seja o mais importante desde a eleição de 2018: apoiar um candidato que possui uma base fiel, mas elevada rejeição, ou apoiar um candidato com maior potencial de crescimento e menor resistência junto ao eleitorado moderado.
A discussão não deve ser emocional. Deve ser matemática, estratégica e eleitoral.
O erro de acreditar que todos os votos da direita pertencem aos Bolsonaro
Existe uma narrativa difundida nos últimos anos de que Jair Bolsonaro construiu sozinho a maior mobilização popular da história recente do Brasil. Entretanto, uma análise dos fatos demonstra que as grandes manifestações de massa contra o PT começaram muito antes de Bolsonaro se tornar um candidato viável à Presidência.
Milhões de brasileiros foram às ruas entre 2013 e 2016 protestar contra corrupção, aparelhamento do Estado, avanço ideológico e destruição econômica promovida pelos governos petistas.
Naquele momento, Bolsonaro era apenas um deputado federal.
O movimento já existia.
A indignação já existia.
O antipetismo já existia.
A realidade é que Bolsonaro surgiu como beneficiário político de uma força social que já estava em movimento.
Isso não diminui sua importância histórica. Mas significa que existe uma diferença entre voto bolsonarista e voto antipetista.
O eleitor da direita é mais antipetista do que bolsonarista?
Esta é a pergunta central.
Quando observamos eleições anteriores, percebemos que dezenas de milhões de brasileiros já votavam sistematicamente contra o PT muito antes do surgimento do bolsonarismo.
Em 2014, milhões votaram em Aécio Neves.
Em 2018, votaram em Bolsonaro.
Em 2022, votaram novamente em Bolsonaro.
A questão é: essas pessoas votaram em Bolsonaro porque eram bolsonaristas ou porque Bolsonaro era o candidato mais forte contra o PT?
A resposta para essa pergunta poderá definir o resultado da eleição de 2026.
O conceito do “Risco Flávio Bolsonaro”
Todo eleitor racional faz uma pergunta simples:
“Qual candidato tem mais chance de vencer?”
Se a sociedade passar a enxergar que Flávio Bolsonaro possui um teto eleitoral devido à rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro, surge um problema estratégico para a direita.
Mesmo que Flávio lidere pesquisas dentro do campo conservador, muitos eleitores podem concluir que ele possui dificuldade para conquistar votos fora da base bolsonarista tradicional.
Neste cenário, votar em Flávio poderia ser visto como uma aposta de alto risco.
Não porque ele seja fraco, mas porque sua capacidade de expansão eleitoral seria limitada.
O potencial de crescimento de Caiado
Ronaldo Caiado apresenta uma característica diferente.
Ele é identificado com a direita, possui histórico conservador, tem experiência administrativa e não carrega o mesmo nível de rejeição nacional associado ao sobrenome Bolsonaro.
Isso significa que Caiado poderia disputar não apenas os votos da direita, mas também:
- Eleitores de centro;
- Eleitores decepcionados com Lula;
- Eleitores que rejeitam o PT;
- Eleitores que rejeitam simultaneamente Lula e Bolsonaro.
Se essa percepção se consolidar, Caiado pode passar a ser visto como uma alternativa mais segura para derrotar o PT.
O voto útil pode surgir dentro da própria direita
Tradicionalmente, o voto útil ocorre entre primeiro e segundo turno.
Mas existe outra possibilidade. O voto útil pode acontecer dentro do próprio campo conservador.
Imagine um cenário onde parte dos eleitores conclui que:
- Flávio Bolsonaro tem maior rejeição;
- Caiado possui maior potencial de crescimento;
- Caiado teria mais facilidade para vencer Lula no segundo turno.
Nesse caso, o eleitor não estaria abandonando a direita, estaria apenas transferindo seu voto para o candidato que considera mais competitivo. O objetivo deixaria de ser demonstrar fidelidade a um grupo político específico e passaria a ser derrotar o PT.
A direita precisa decidir qual é sua prioridade
A pergunta que precisa ser feita não é:
“Quem representa melhor o bolsonarismo?”
A pergunta correta é:
“Quem possui mais chances reais de vencer a eleição?”
Se a prioridade da direita for apenas preservar um grupo político, a escolha será uma.
Se a prioridade for conquistar o governo federal, a escolha poderá ser outra.
As eleições de 2026 talvez não sejam definidas pela força do lulismo nem pela força do bolsonarismo.
Talvez sejam definidas pela capacidade do eleitor conservador de fazer um cálculo estratégico.
E é justamente aí que surge o conceito do Risco Flávio Bolsonaro.
Não se trata de uma crítica pessoal.
Trata-se de uma análise eleitoral.
Porque, em política, não basta ter apoio, é preciso ter capacidade de vencer.
E, muitas vezes, a diferença entre vencer e perder está na capacidade de atrair aqueles que não fazem parte da sua base original.
A eleição de 2026 poderá responder uma das maiores perguntas da política brasileira contemporânea: O eleitor da direita é essencialmente bolsonarista ou essencialmente antipetista? A resposta determinará o futuro do Brasil.
A Prova Histórica do Eleitor Antipetista
Existe um fato histórico que merece atenção e que normalmente é ignorado pelos analistas políticos.
Em 2014, muito antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente, Aécio Neves chegou ao segundo turno contra Dilma Rousseff e recebeu mais de 51 milhões de votos. Dilma venceu por cerca de 54,5 milhões contra 51 milhões de votos para Aécio. A diferença foi de aproximadamente 3,5 milhões de votos.
O dado mais importante não é a derrota de Aécio.
O dado mais importante é o tamanho do eleitorado que votou contra o PT.
Naquela época, Bolsonaro não era candidato competitivo à Presidência. O bolsonarismo ainda não existia como movimento nacional organizado.
Mesmo assim, mais de 51 milhões de brasileiros votaram contra o projeto político petista.
Anos depois, Jair Bolsonaro recebeu números eleitorais semelhantes em suas disputas presidenciais.
Isso levanta uma questão inevitável:
Esses votos pertenciam a Bolsonaro ou já existiam antes dele?
A sequência dos acontecimentos sugere que o eleitorado antipetista já estava consolidado antes da ascensão do bolsonarismo.
As manifestações de rua de 2013, 2014, 2015 e 2016 já demonstravam uma insatisfação crescente com o PT. O impeachment de Dilma não foi causado por Bolsonaro. A Operação Lava Jato não foi criada por Bolsonaro. A revolta popular contra a corrupção também não surgiu com Bolsonaro.
Tudo isso já estava em curso.
Nesse contexto, Bolsonaro apareceu como o candidato capaz de representar uma força política que já existia.
Isso não significa que Bolsonaro não tenha méritos políticos.
Significa apenas que a origem da mobilização popular parece estar mais ligada ao antipetismo do que à figura específica de Bolsonaro.
Essa distinção é fundamental para compreender a eleição de 2026.
Se o eleitorado brasileiro for majoritariamente bolsonarista, a transferência de votos para outro candidato será difícil.
Mas se o eleitorado for majoritariamente antipetista, poderá migrar para qualquer candidato que seja percebido como mais capaz de derrotar a esquerda.
É exatamente nesse ponto que surge o debate sobre o chamado “Risco Flávio Bolsonaro”.
A questão não é quem representa melhor o legado de Bolsonaro.
A questão é quem possui maior capacidade de reunir os 51 milhões de brasileiros que já votavam contra o PT quando Bolsonaro era apenas um deputado desconhecido.

